O meu lugar: da consciência à luta

Texto por Maíra Donnici*.


Nasci branca, economicamente privilegiada, mulher. Durante muito tempo, não entendi o que isso significava. Eu não entendia que eu era oprimida pelo simples fato de ser mulher. Não entendia que as oportunidades que eu tinha vinham do lugar que, automaticamente, ocupei no momento em que eu cheguei ao mundo. Não entendia que a minha cor me dava uma enorme vantagem em relação a grande parte das pessoas, que sequer posso dizer que coexistiam no meu universo restrito; simplesmente elas nunca tiveram a chance de chegar até ele. Na nossa sociedade determinista e desigual, nascer de um jeito diz muito sobre o nosso destino.


Eu demorei para compreender essa dinâmica infeliz. Eu estava tão inserida na minha redoma que não tinha o acesso, o alcance da teia vertical que impera em todos os âmbitos, em todas as ramificações das nossas relações interpessoais. E eu poderia ter ficado assim para sempre. Era confortável estar no topo da cadeia socioeconômica sem fazer muito esforço. Ou achar que eu estava.


Na universidade, que ingressei com folga graças à educação que recebi e abracei, tive contato com uma outra realidade – fui a única da família primária a cursar o ensino público. Vi gente que estava ali com muito esforço, que mal tinha condições para bancar os centavos da xerox do conteúdo proposto, enquanto eu comprava livros só para ler um único capítulo. Chato, né? “É, mas cada um tem a sua vivência. Vida que segue”. Eu ainda pensava assim.


Logo comecei a passar em tudo o que era teste de seleção de emprego. “Nossa! Que vencedora!”. Só faltava conhecer um cara legal, ter filhos, confirmar os estágios a que toda moça pertencente à minha casta foi designada. Eu era jovem, vaidosa, orgulhosa de estar dentro do patamar de boa aparência que havia sido firmado sei lá por quem, com um extenso e movimentado círculo social. Ao mesmo tempo em que eu não tinha paz. Era como se eu fosse muito mais profunda do que estava ao meu alcance. Nada me preenchia.


Até que um dia eu saí do script. Me senti atraída por uma mulher. “O que é que tem?”. Tinha! Tinha muito! Tinha, porque eu estava trilhando um caminho divergente do que eu supostamente teria nascido para trilhar. Tinha porque o que se esperava de mim não passava pela rota da homossexualidade. “Calma! É só uma fase! Eu continuo sendo a mesma de antes! Eu juro! Vou continuar sendo inteligente, competente, feminina, não muda nada!”. Já tinha mudado. E doeu. Doeu pra caramba! Doeu a ponto de tentar esconder por muito tempo pra poder respirar e me sentir “normal”. Mas eu só estava postergando minhas questões, me sufocando.


Levei vida dupla, era uma em um lugar e outra no outro. Tinha medo, tinha vergonha. Criava pra mim uma falsa narrativa de que comigo seria de outra forma. Que no fim eu ia voltar ao que eu era. Eu não ia decepcionar a minha família. “Sua lésbica!!”. Eu ouvi isso dentro de casa, como xingamento, como ofensa. De repente, a garota exemplar manchou o currículo. “Eu criei uma mulher”, “minhas amigas ficaram estupefatas”. Rolou de tudo, até cuspe na cara. E eu só conseguia sentir culpa, enquanto me enfiava em relacionamentos que não me completavam.


Aos trinta anos, eu tive uma crise de ansiedade tão forte, que achei que estava enlouquecendo. Comecei a ter uma angústia que eu não conseguia controlar. E não tive outra alternativa a não ser olhar pra dentro e tentar ouvir o que o meu corpo estava me dizendo. Mais dor. Quando o meu mundo caiu e só sobraram os cacos, eu me percebi diferente. E não só por causa da sexualidade. Eu comecei a ter uma vaga ideia do lugar que eu realmente ocupava. Acordei e o machismo, o racismo, a homofobia, o classicismo, os padrões que aprisionam estavam em todo lugar.


Talvez essa minha história seja bem diferente da sua. Talvez pra você tenha sido mais fácil ou ainda seja bem mais difícil. Eu estou usando ela para dizer que eu só fui perceber as relações de opressão justamente quando eu passei para o lado do oprimido, da forma mais óbvia, clara, agressiva, evidente.


E, quando isso aconteceu, eu notei também que havia muita gente travando lutas que eu achava que não eram minhas. Não é porque eu sou filha do privilégio que não devo lutar por menos desigualdade social. Não é porque sou branca que sou isenta da luta antirracista. Pelo contrário! Ela precisa de mim. “Me sinto uma mulher tão ‘empoderada’, vão vocês queimar seus sutiãs e fazer protestos e afastar os homens”. Tolinha eu! Antes, eu conseguia identificar um hiato enorme entre homens e mulheres, no entanto, não conseguia detectar a discrepância em toda parte, o tempo todo. As mulheres que estavam lá, lutando antes de mim, sendo criticadas e diminuídas enquanto eu ocupava minha posição de bem resolvida, não se importavam. A luta delas era por mim também, embora eu, de alguma forma, só contribuísse para enfraquecer a delas. Chega!


Eu não fui a primeira LGBT a escancarar sua relação e fazer um esforço para afirmá-la. Aliás, já fui uma pessoa bem preconceituosa. Já fiz piada de viado e sapatão. Já disse que bissexual era uma pessoa indecisa. Já chamei o amigo de viadinho e a amiga de caminhoneira. Sem me tocar que, enquanto isso, milhares estavam sendo oprimidos, se não assassinados, por serem quem eram. Eu não consigo descansar quando reflito sobre isso. Porque hoje, depois da minha revolução interna, eu tenho cara, tenho voz e não tenho receio. Eu sei o meu lugar. Tá, e quem depende da família? Quem está em um meio muito mais hostil que o meu? Quem não tem voz nessa sociedade que exclui? Eu posso ser bem resolvida hoje em dia – às custas de muita análise, olha o meu privilégio de novo! Só que enquanto tiver gente perdendo emprego por ser gay, enquanto tiver lésbica ouvindo que decidiu ficar com mulher porque não foi bem comida, enquanto perguntarem quem é o homem da relação, enquanto a relação entre duas mulheres for considerada bizarrice ou um fetiche de macho, enquanto tiver gente sofrendo, gente morrendo, eu preciso militar.

E entendo que nem sempre quem é minoria quer ou consegue militar. Pra você militar, primeiro, você precisa se entender como um ser humano marginalizado, diferente. E isso tem um preço alto. Às vezes, a solidão acompanhada parece trazer mais conforto. A pessoa fica ali, repetindo padrões, se esforçando para ser mais de um todo que não a representa e torcendo pra ninguém notar. A autodefesa é legítima. Contanto que não minimize a luta, tudo certo.


Recentemente, além de mulher, além de LGBT, eu passei a desempenhar, junto com a mulher que eu escolhi para esse caminho, uma nova identidade: a dupla maternidade. Não sei nem se identidade é a palavra que melhor define o “status” de mãe com outra mãe. Por algum tempo usei o termo “caixa”. Hoje vejo que, além de caixa ser algo que limita, a própria dupla maternidade tem suas especificidades.


Dupla maternidade... Dupla maternidade... “Ué, mãe só tem uma! Cadê o pai? Quem de vocês é a mãe? Ah, então a outra é pãe! De quem é o óvulo? Nossa, que coragem! Você não acha que pode causar algum trauma pra sua filha? Não vai faltar uma presença masculina? Você vai contar a verdade pra ela? Qual das duas ela prefere? E essa loirice vem de onde? O pai é alto? Quê? Doador? Ah, agora esse é o politicamente correto! E se ela quiser saber quem é esse cara? Genética é algo tão determinante! A sua mulher então adotou a sua filha?”. Eu sabia que a gente enfrentaria uma série de questões, até pelo desconhecimento mesmo, nosso e dos outros. Porém, não fazia ideia de que haveria um esforço, não só para desmerecer a minha configuração familiar, como também para deslegitimar uma de nós duas como mãe.


“Você quer parto normal?”, “Onde você vai ter?”, “Parabéns pela sua gravidez!”. “Não! Nosso parto! Nossa gravidez! Nossa filha!”, eu respondia, enquanto ouvia questionamentos, afirmações e tinha olhares direcionados apenas para mim. O plural, o nosso, começou a fazer parte da luta ali. Nunca mais saiu. Nosso! Nosso! Nosso! Duas mães, duas pessoas distintas, duas experiências peculiares. E um envolvimento duplo que eu nunca tinha visto igual. Bem, não há nem como ver, se a gente não tem referência de maternidade se não essa que está aí há milhares de anos, num sistema que valoriza o físico, o biológico, os papéis pré-estabelecidos. Como tecer a nossa própria trama se estamos todos viciados?

Até hoje, nunca nunca nunca tive a minha maternidade colocada à prova – e olha que, nos últimos meses, tem semanas que eu sou praticamente uma visitante em casa. A da minha mulher, volta e meia é confrontada, mesmo nas sutilezas. Essas são as piores, sem dúvida.


Não demorou muito para eu entender que, não importa como as coisas funcionam dentro da minha casa, ou nos ambientes onde nos sentimos respeitadas e acolhidas. Não importa se a minha mulher tem uma segurança inabalável na maternidade dela, reconhecida por quem mais tem peso nisso tudo, que é a nossa filha. Não importa o nosso umbigo. É preciso militar por mudanças na forma de ser e de pensar.


É preciso militar enquanto famílias de duas mães forem alvo de preconceito. É preciso militar enquanto houver mães não legitimadas. Enquanto houver a crença de que uma tem que dar o óvulo e a outra a barriga “para as duas serem mães”. Ou o preceito de que a mãe que não gestou precisa fazer um protocolo para produzir leite e assim validar seu vínculo natural. Muito é possível no mundo da medicina e da tecnologia e isso é incrível. E tudo é válido, claro! Tudo é legítimo. Por outro lado, grandes conquistas exigem reflexões profundas. Não só por e para nós, agentes desse processo, e sim pelos nossos filhos, que certamente vão se perceber diferentes. Que os nossos comportamentos enraizados, nossa vontade de pertencer, a nossa vaidade e até uma possível culpa não se sobressaiam no esforço de passar para eles, nossos filhos, que ser livre, diverso e ter essa consciência é legal pra caramba.


A discussão sobre a luta pela legitimação das mães não é pessoal. Ela é social. E deve existir porque, sim, impera uma diferenciação desses lugares para condecorar uma e diminuir outra, quase como uma dicotomia em que duas não possam existir de maneira equilibrada.


Não é sobre se sentir mãe, porque isso é subjetivo, intransferível. É sobre conquistas num meio que insiste que mãe só tem uma: a que gestou, a que deu a genética, a que performa feminilidade e tantos outros estereótipos que não contribuem pra absolutamente nada.


É preciso militar pela igualdade enquanto só uma das mães tiver o direito a licença-maternidade. Enquanto duas mães não conseguirem registrar seus filhos sem precisar mostrar um documento comprovando sua união e outro de clínica, com firma reconhecida, atestando que as duas fizeram tratamento ali. Ok, minha filha tem as duas mães no registro. E quem tem duas mães e não conseguiu? Quem precisa lançar mão da justiça e não tem essa possibilidade?


Existe uma diferença entre representação e representatividade. Representação está em mostrar que existimos, que não nos escondemos. Ela é necessária, porque tem uma função importantíssima na difusão desse formato familiar ainda novo. Sim! Existimos! Somos cada vez mais numerosas. Só que não adianta existirmos e continuarmos perpetuando valores, comportamentos, rituais, crenças, dizeres que não nos contemplam. Acredito na necessidade da representatividade: ser e questionar, ser e problematizar, ser e avaliar onde queremos chegar para, então, nos organizarmos para chegar. Ser e mudar a forma de ser e de pensar. Isso, muitas vezes, é tomado como uma crítica direta. O debate sobre o novo mexe conosco e provoca rupturas. Faz parte da construção... Ou melhor, da desconstrução.


*Maíra Donnici é jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha há 14 anos como editora, repórter e produtora na TV Globo. É documentarista, dirigiu, produziu e roteirizou o documentário “Meus 18 anos”, lançado em 2017 pela GloboNews - sobre jovens que precisam deixar abrigos quando completam a maioridade. É midiativista, autora do blog Duas Mães e Uma Filha (duasmaeseumafilha.com). Encontrou mesmo seu lugar quando descobriu o amor ao lado da mulher, Inês Vergara, com quem tem uma filha, Antonia.


Foto: Laura Gama.