Maternidades lésbicas: opção por tornar-se mães¹

Texto de Claudete Camargo Pereira Basaglia*.


Escrever sobre maternidades sempre dá muito o que pensar, mas para esse momento proponho uma reflexão sobre uma face das maternidades que se refere às maternidades lésbicas: a opção por tornar-se mães.


Penso que é bom apresentar as questões que despertaram meu interesse em estudar o tema das maternidades lésbicas. A primeira delas tem como base o fato de que a opção pela maternidade é um fenômeno que se consolidou no decorrer do século XX e esboçou o processo social de transformações que permitiu às mulheres e às crianças serem vistas como sujeitos. A segunda é a luta das lésbicas na busca pela igualdade de direitos. A terceira é a existência de tensões sociais e políticas que se aplicam de modo específico às maternidades lésbicas, seja no tornar-se mãe pela adoção, inseminação artificial ou relação heterossexual.


Como ponto de partida apresento a seguinte afirmação: para todo tipo de casal – hétero ou homossexual – o projeto de ter filhos e filhas e constituir família não ocorre solitariamente; é parte integrante dos parâmetros da construção conjugal, do ajustamento às normas sociais. O tempo de vida em comum e o sentimento de ser casal, as conversações, as decisões compartilhadas, fazem do desejo de ter filhos e filhas um processo relacional.


Agora pergunto: aceitar essa afirmação seria aceitar que a opção pela maternidade para casais de lésbicas tem o significado de se ajustarem às normas sociais e se inserirem no quadro da heteronormatividade², no qual prevalece a ideia de que toda mulher nasceu para ser mãe?


Para responder recorro a trechos de relatos orais de mulheres lésbicas colaboradoras da minha pesquisa.


Desde mocinha eu soube que ia ser mãe. Também tive um casamento heterossexual antes de conhecer a Catiane e não tive filhos. Quando nos conhecemos, eu soube que ser mãe era possível porque eu teria uma companheira com quem dividir essa responsabilidade. (Relato de DORALICE)

Antes de nos conhecermos, eu tive uma experiência de casamento heterossexual que terminou com um divórcio. Nesse tempo minha opção já era que não seria mãe biológica, isso sempre foi muito claro pra mim. Eu não sabia como, mas eu achava que um dia na minha vida eu partiria pra uma adoção, queria viver essa experiência de mãe. Então, quando eu conheci a Doralice, falei pra ela dessa minha vontade. Foi bacana porque ela também tinha esse desejo e isso facilitou pra mim. A gente amadureceu a ideia e depois de quatro ou cinco anos de relacionamento a gente decidiu concretizar. (Relato de CATIANE)

Como eu percebi, com 17 anos, que iria me relacionar com mulheres, passei a viver angustiada pensando em como poderia ser mãe. Em muitos momentos cheguei a desacreditar que as duas coisas pudessem ser possíveis juntas: gostar de mulheres e ser mãe. Pensei que teria que renunciar a uma delas, então, eu me atormentava por causa disso. Eu não conseguia entender como eu que queria tanto ser mãe gostava de mulheres. Olha, foi tanta angústia que no começo eu cheguei a pensar em ter um filho com ajuda de um amigo, mas desisti e com o tempo fui procurando mais informações até chegar na inseminação artificial com o doador desconhecido. [...]. Eu não consigo me imaginar sem filhos. Sempre quis engravidar, ter barriga, parir. Olha, cada vez mais ter filhos é uma escolha. Até algum tempo atrás não era uma escolha né, e eu acho que deve ter sido muito ruim pra quem não queria porque ser mãe é uma coisa muito intensa. (Relato de ANA)

Eu também tinha vontade de ser mãe, mas não houve oportunidades no meu casamento anterior e, depois, a Ana foi minha barriga. Pra falar a verdade, fiquei meio assustada quando nos conhecemos porque de cara ela já disse que queria engravidar, ter filho. Depois de oito meses de namoro fomos morar juntas e algum tempo depois ela fez a inseminação. (Relato de NORMA)

Esses trechos apontam como o desejo de ter filhos e filhas está inserido no processo de construção conjugal, o seu teor também sugere que esse desejo pode ficar numa linha tênue, porque a evocação da natureza para justificá-lo não está muito distante de apresentá-lo como um estado intrínseco às mulheres heterossexuais, que enraíza na natureza o fato de as lésbicas não poderem ter filhos e filhas porque não são mulheres de verdade, confirmando a proibição da maternidade.


No entanto, as mulheres lésbicas que desejam ser mães, mesmo que o desejo sempre tenha existido, precisam de muitas reflexões e negociações para realizá-lo, porque a sua concretização depende de fatores que não estão postos para aquelas que não são lésbicas. Um deles é a tensão subjetiva que diz respeito à difícil tarefa de desconstruir o pensamento corrente de que lésbica não pode ser mãe, muitas vezes, interiorizado mediante doutrinas religiosas. A partir do momento em que a desconstrução se concretize, o desafio das tensões sociais provocadas pela decisão de tornar-se mãe estará posto.


Uma dimensão desse desafio é dada pelo exemplo do que foi dito por uma enfermeira e está registrado no texto Enfim mães! Da Experiência da Reprodução Assistida à Experiência da Maternidade Lésbica de Daniele Andrade da Silva: “Em relação ao homossexualismo, eu, como sou contra, não concordo, enfim... mas respeito, se tiver que vir um casal, eu vou atender, darei todas as informações, serei profissional”. O que a enfermeira expressou em relação ao agir profissional, não elimina o preconceito declarado e indica que, sem questionar-se, mantém-se a crença de que sua maneira de pensar não interferirá nas relações que precisar ter com casais de mulheres lésbicas, o que é questionável.


Como conclusão, é possível afirmar que há distanciamentos entre as maternidades lésbicas e as não lésbicas. As opções que antecedem a decisão, as possibilidades de mudar de posição e que precisam ser encaradas pelas lésbicas que desejam ser mães colocam-se entre as condições que afastam as maternidades lésbicas do quadro da heteronormatividade.


¹ O conteúdo deste texto é extraído da Tese de Doutorado em Sociologia, MATERNIDADES LÉSBICAS: clivagem entre as tensões sociais e políticas do tornar-se mãe na contemporaneidade. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras-Unesp/Araraquara, 2017.

² A palavra heteronormatividade conjuga dois vocábulos: heterossexualidade e norma, uma formulação que explica por si só que compreender a heterossexualidade como norma é aceitar que ser heterossexual é padrão, é aceitar que não podem existir outras sexualidades porque fogem da norma, são erradas, esquisitas, doentias, devassas.



*Claudete Camargo Pereira Basaglia: "Meu nome é Claudete. Sou mãe da Thaís, do Leonardo e do José. Entre 2012 e 2016, vivi a condição de aluna do doutorado na UNESP de Araraquara-SP, uma condição que me levou a ser membra do Núcleo de Estudos de Gênero de Araraquara – NEGAr. No doutorado em Sociologia desenvolvi pesquisa que deu origem à tese Maternidades Lésbicas: clivagem entre as tensões sociais e políticas do tornar-se mãe na contemporaneidade, que defendi em março de 2017. Ela está vinculada à Linha de Pesquisa: Diversidade, Identidades e Direitos e minha orientadora foi a professora Drª Lucila Scavone. Em Araraquara também sou membra do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres e integrante do Movimento Social Promotoras Legais Populares – PLPs." Foto: Acervo Pessoal.



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