Maternidade lésbica resiste

Texto de Marcela Tiboni*.


A maternidade envolve duas situações essenciais, ter um filho e cuidar dele. Veja, eu disse ter um filho e não parir, já que existem muitas formas de ter um filho, pode ser por adoção, por barriga solidária, pela própria barriga, pela barriga da sua esposa e devem haver ainda outras formas possíveis.


Eu sempre quis ter filhos e como minha criação social sempre foi tradicional, eu sempre quis engravidar. Ao mesmo tempo, sempre tive medo da gravidez e certo receio, mas não me restava opção, então teria que enfrentar a barriga crescendo para a chegada de um sonhado bebê. Quando conheci a Mel, mulher com quem sou casada, ela também tinha o desejo de engravidar, por alguns dias me pareceu estranho, duas mulheres querendo ter filhos pela própria barriga? Vai dar erro no sistema e demorar mais para conseguirmos tomar a decisão de forma agradável a todas. Uma semana depois me peguei lembrando que sempre tive medo de engravidar, e comecei a me perguntar por que eu, que tinha medo, precisaria passar por aquilo? “Para ter um filho!” eu mesma me respondia. Mas a luz da sirene interna soou alto, eu podia ter um filho sem engravidar, viveria todas as alegrias e ansiedades da gestação sem precisar ser no meu corpo, viveria um parto de perto, sem precisar sentir as dores dele, eu seria mãe sem gestar. Fui invadida por uma liberdade assustadora, me sentia leve, feliz, agraciada. Dei a notícia para a Mel, que de início estranhou, mas depois entendeu e assim tomamos a decisão que nosso filho viria pelo ventre dela.


“Mas se não tem a sua carga genética não são biologicamente seus filhos, e, portanto, não seria adequado você amamentar, porque seria amamentação cruzada. Quando uma mãe amamenta o filho de outra mãe”. Esta frase ouvi do meu antigo ginecologista quando perguntei sobre a dupla amamentação.


“Duas mães amamentando? Isso só vai confundir o bebê. E pra que as duas amamentarem se uma só já é suficiente? Eu amamento sozinha e meu filho nunca sentiu falta de outro peito”. Esta frase ouvi de uma amiga que acabara de se tornar mãe.


“Ah Marcela, ter filho é demais. E nós que somos pais então, mais legal ainda. Você vai ver, ser pai é demais”. Este diálogo aconteceu com um amigo que se tornaria pai pela segunda vez.


“Eu acho que vocês estão querendo inventar moda, isso sim”. Esta li de uma pessoa pelas mídias sociais.


A maternidade é tão antiga quanto a vida humana, a única coisa que temos certeza é que nascemos do ventre de alguém. Mas a maternidade lésbica parece ser uma novidade na sociedade atual, muito desconhecimento, muitos preconceitos velados e revelados, muita curiosidade e muitos achismos. Eu sempre rejeitei o rótulo “novas configurações familiares” porque um casal composto de duas mulheres é tão antigo quanto a roda, mas, parece que só há pouco tempo atrás a sociedade passou a validar esta possibilidade. Sendo assim, desde a gestação somos uma história acompanhada por muitos olhos, decidimos mostrar nossa família desde o princípio, como fazem muitos casais heterossexuais. Isso dá margem às frases que escrevi ali em cima, mas também nos trouxe muitas alegrias e olhares revigorados.


Eu optei por não gestar Bernardo e Iolanda, mas decidi que iria amamentá-los, pode parecer estranho, curioso, lindo, diferente e tantos outros adjetivos que costumamos ouvir ao longo desta jornada, mas o fato é que esta possibilidade existe e quisemos experimentá-la. Amamentamos, as duas, ainda na sala de parto, comoção da nossa equipe médica, resistência da equipe do hospital. Be e Ioio já nasceram frente a olhares incrédulos e combativos, foram gerados escutando não de muitos e presenciando a luta de suas mães para converter as negativas em sonoros sins.


Sou mãe não porque amamentei, mas por que decidi que aquelas crianças seriam meus filhos, porque como casal fizemos as escolhas juntas, vivemos os processos clínicos como uma dupla, por que nos fortalecemos como companheiras, e por que criamos os gêmeos com amor e dedicação desde que chegaram ao mundo. Se importa quem gestou, quem amamentou, qual sobrenome eles têm? A nós não faz a menor diferença, e lutamos para que no futuro estas informações não importem a ninguém na hora de validar a maternidade de um casal! Avante, seguimos!!


*Marcela Tiboni é escritora e educadora. Lésbica, casada, mãe dos gêmeos Bernardo e Iolanda, a maternidade trouxe o desejo de transformar o olhar social perante os casais de mulheres. Escreveu o primeiro livro a falar de maternidade lésbica no Brasil, chamado MAMA: um relato de maternidade homoafetiva (Dita livros), lançou em colaboração com a loja de camisetas Mamahood a primeira camiseta também sobre o assunto, e tem participado ativamente do debate em redes sociais e na mídia.



Foto: Acervo Pessoal.