A excelência em pesquisa no Brasil: nós, as lésbicas.

Texto de Daniela Auad*, escrito para a inauguração do site do Lésbicas que Pesquisam.


Ao saber da existência do projeto Lésbicas Que Pesquisam soube que se multiplicavam nossas possibilidades de enfrentar uma espécie de solidão que conhecemos pelo fato de sermos lésbicas, a qual é permeada por muitos elementos, dentre os quais o isolamento que nos é imputado dentro e fora da academia. Senti que podíamos estar em rede de variadas maneiras, tanto para realizar nossas pesquisas e dialogar sobre elas quanto para celebrar o que Bell Hooks denominou de “Alegria completa”. Neste curto capítulo, a autora escreve muito brevemente sobre as relações entre feminismo e lesbianidade e, em que se pese o valor inestimável dos escritos de Bell Hooks, mais uma vez se vê apenas uma menção sem maior aprofundamento sobre lesbianidade, e, mesmo sendo tão econômica em volume e densidade, já nos traz um alento, um motivo para sentirmos que o capítulo citado difere da maioria dos escritos feministas e LGBT, que muitas vezes nos silenciam e nos lançam à invisibilidade.


Cito assim, o texto de Bell Hooks, ao ser convidada para escrever a abertura do site Lésbicas que Pesquisam, pois sinto algo como uma Alegria Completa, na qual feminismo e lesbianidade se encontram, e, neste caso, se demoram juntos. Ao partir de um projeto que objetivava criar uma plataforma referencial de pesquisadoras lésbicas, o presente site promove e facilita o acesso às nossas produções, dá visibilidade à nossa resistência na academia e comemora a existência lésbica. Desta maneira, temos um novo lugar de encontro, de diálogo, de conhecimento e reconhecimento.


Como maneira de celebrar o surgimento desse nosso novo lugar tão repleto de possibilidades, socializo texto escrito por mim e por Cláudia Regina Lahni, que também é uma lésbica que pesquisa e que, ao meu lado, cria e alimenta as ações de pesquisa, docência, extensão e militância do Flores Raras, Coletivo e Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Feminismos – CNPq/UFJF.


Cumpre destacar que o texto que abaixo divulgo segue atual e foi escrito no mesmo ano do surgimento das Lésbicas que Pesquisam, em 2017. Tal texto foi motivado por campanha de Visibilidade Lésbica que o Flores Raras realizou, na Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição de Ensino Superior na qual, até o momento, realizamos atividades e a partir da qual mantemos vínculos com integrantes em variadas localidades do Brasil, como Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.


O texto abaixo foi enviado pela Universidade, pela Pró-reitoria de Comunicação, para os e-mails de toda a comunidade acadêmica – discentes, docentes e pessoas que atuam como técnicas administrativas e que trabalham de modo terceirizado. Como maneira de explicar o que continuamente parece não estar evidente, além de enviar o e-mail, também ocupamos o campus com nossas imagens estampadas em outdoors, assim como realizamos um vídeo institucional. Todas essas ações, no interior da Campanha de Visibilidade Lésbica de 2017, foram construções realizadas ao longo de meses com encontros e reuniões com lésbicas docentes, discentes, tae´s e terceirizadas. Assim, podemos dizer que o texto, assim como a campanha como um todo, representa um conjunto de lésbicas, para além do Flores Raras, da mesma maneira que não se trata de texto que tenha “datado”, posto que é importante lembrar essas mesmas assertivas a cada agosto, mês de nossa visibilidade. Na atual conjuntura, relembrar que somos a excelência nas universidades onde estamos importa mais do que sempre, ainda mais se considerarmos o cenário atual de projetos proibitivos quanto ao debate sobre relações de gênero, sobre sexualidades e sobre feminismos.


Enfim, sugiro que cada lésbica, ao ler o texto abaixo, faça o exercício de substituir o nome UFJF, a Universidade onde estou agora, pelo nome da Universidade onde você está ou esteve. Se aí, onde quer que você esteja, você se sentir só, saiba que há lésbicas que, assim como você, desejam, amam, estudam, trabalham, buscam companhia de amigas, namoradas, familiares e, ao fazer isso, por vezes, tem sucesso e, tantas outras vezes, se sentem isoladas, rejeitadas e invisibilizadas – porque assim são colocadas pelos familiares, colegas e variados “pares”, nos movimentos sociais, nas instituições de ensino, nas famílias, no mercado de trabalho. Sugiro que lembrem, então, ao lerem esse texto e ao acessarem esse site, que há Lésbicas Que Pesquisam, e assim fazem a bem de sua existência e a bem da existência de todas as mulheres, a bem do conhecimento, a bem das universidades e, sobretudo, a bem da democracia.


“A vida das lésbicas é, como a de todas as pessoas, marcada pelo afeto, pelo trabalho, pelo amor, pela busca do conhecimento, pelo desejo, pela felicidade e também pela dor. Apesar de tudo que iguala as lésbicas a todas as pessoas, elas ainda sofrem violências das mais diversas, em razão do ódio que, por vezes, se tem pelo seu modo de desejar e amar, tão legítimo quanto o modo de desejar e amar das mulheres e homens heterossexuais. Do apagamento dos seus nomes, da rejeição por suas companhias, até ataques verbais e físicos, as lésbicas têm uma vida crivada por uma específica forma de violência contra a mulher: a lesbofobia (toda forma de violência contra as mulheres lésbicas).


Com a absoluta certeza de seu papel de democratização na sociedade, dentro e fora da Universidade, a UFJF realiza esta Campanha de Visibilidade Lésbica e, com isso, conta orgulhosamente para toda a Comunidade que o mês que conhecemos como aquele no qual voltamos das férias é importante por outros motivos. Esse é o mesmo mês que reúne o Dia do Orgulho Lésbico, no dia 19 de agosto, e o Dia da Visibilidade Lésbica, no 29 de agosto. Essas datas são para lembrar o respeito e valorização que temos de ter, em todos os dias do ano, com esse grupo de mulheres tão numeroso e diversificado, por um lado, mas, por outro lado, ainda tão invisível e violentado. Por essa razão, os dias 19 e 29 de agosto lembram importantes momentos do movimento de fortalecimento das mulheres lésbicas no Brasil. Houve a manifestação em 19 de agosto de 1983, em São Paulo, sob a liderança de Rosely Roth, e, em 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro, a realização do Primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale).


Sabemos que a excelência da UFJF é constituída pelo trabalho diário de inúmeras mulheres lésbicas, que são docentes, técnico-administrativas em educação, trabalhadoras terceirizadas e estudantes de pós e de graduação. Reconhecemos, entretanto, que, infelizmente, as lésbicas ainda sofrem com a discriminação, por serem mulheres e por serem parte da população LGBT. Com a Campanha de Visibilidade Lésbica, a UFJF reconhece que as lésbicas são parte de nossa excelência, mas também reconhece que o preconceito ainda é um obstáculo para atingirmos a qualidade de ensino, pesquisa e extensão que almejamos.

Assim, com a Campanha de Visibilidade Lésbica, a UFJF assume que se orgulha das lésbicas que a constroem diariamente, com seu trabalho, seu estudo e suas variadas formas de viver em sociedade! A UFJF se compromete a combater toda forma de preconceito e discriminação! E, saiba, você que está lendo este texto está diante, provavelmente, da primeira campanha com essa abordagem no Brasil. Com essa pioneira ação de educação e de comunicação, a Universidade assume o seu papel de educadora que quer diariamente formar pessoas que atuem como cidadãs em prol de uma sociedade igualitária e democrática. Dessa forma, mais uma vez, reafirmamos que nenhum tipo de preconceito será admitido na UFJF. Ao apresentar aqui nosso respeito e nosso aplauso a todas as mulheres lésbicas, conclamamos todas e todos a fazer o mesmo!”


Arte de Sabrina Lopes

*Daniela Auad: Doutora, Mestra e Pedagoga pela Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), com pesquisa e ênfase de formação na área de concentração Sociologia da Educação. Pós- Doutora em Sociologia pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas); Professora Permanente da linha Trabalho, Estado e Movimentos Sociais, no Programa de Pós- Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGE/FACED/UFJF), onde também leciona a disciplina obrigatória Sociologia da Educação, a eletiva Feminismos, Gênero e Intersecções: bons motivos para romper a ordem compulsória ou comprar uma boa briga; e a eletiva Ética e Política: a afirmação da Democracia pelas vozes das Mulheres. Desde 2006, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde ingressou na carreira de docente de Universidade Federal, até a atualidade, quando se encontra na UFJF, foi fundadora e coordenadora do Flores Raras – Coletivo e Grupo de Estudos e Pesquisas Educação, Comunicação e Feminismos. Desde o Ensino Médio, é militante feminista e atualmente o foco de sua militância, ativismo e pesquisa se coloca nos feminismos das e para as Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais. As abordagens das pesquisas que orienta circunscreve sua atuação nas seguintes temáticas: Educação, Movimentos Sociais; Políticas Públicas; Sociologia da Educação; Feminismos; Relações de Gênero; Interseccionalidade e Transversalidade das Categorias Sociais. Conselheira Estadual da Mulher e Participante do Observatório de Gênero e de Raça da Secretaria de Mulheres do Governo do Estado de Minas Gerais, de 2016 a 2018, Daniela nasceu, em 1973, no dia 28 de junho, na cidade de São Paulo. Casada com Cláudia Lahni, Daniela mora em Juiz de Fora desde 2010, em companhia também de sua filha Leila, seus gatos, gatas, músicas, plantas e livros. Email para contato: auad.daniela@gmail.com. Site: http://www.ufjf.br/educacomunicafeminismos.